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SOCIEDADE DA COMBUSTÃO (Ed. 1) 

Em Inextinguishable Fire, de 1969, Harun Farocki, também diretor do documentário, surge nas primeiras cenas lendo uma denúncia de um vietnamita ao imperialismo norteamericano durante a guerra, citando o uso desumano do Napalm. Para explicar os efeitos físicos e a crise humanitária, de forma concreta/pedagógica ao espectador, utiliza uma ação rápida e performativa: apaga um cigarro em seu braço. Compara os 400 graus da recente ferida aberta, pela bituca, aos 3000 graus sobre o corpo de um vietnamita vítima do Napalm. Ele complementa: “Se mostrarmos a eles ferimentos de Napalm, fecharão os olhos. Primeiro eles fecharão os olhos para as imagens. Então eles fecharão os olhos para a lembrança dessas imagens. Então, eles fecharão os olhos para os fatos”.

O grito silencioso da “Napalm Girl”, congelado na clássica fotografia de Nick Ut, nos assombra novamente (e quando nos deixou de assombrar?), justo porque o olho da história está fechado com a fuça e língua sobre a ferida. Se o “fiat lux” do fogo, no princípio da história, foi a descoberta mais importante pra retirar a humanidade da escuridão, agora, no escuro, decreta o seu fim, consumida pelo fogo.

 

O fogo como mediador da história revela a sociedade da combustão. Já não é possível distinguir a realidade da distopia quente de Ray Bradbury, quando os bombeiros queimam (a ética universal dobrada e desdobrada pelo poder multimilionário) e a sociedade aquiesce, essa, que por vias de Nego Bispo e Krenak, está sujeita à fagocitose da terra. A temperatura média do planeta aumentou 1,6 graus C, e estamos à beira do irreversível, da devolutiva, em que os desaparecidos serão vingados pelo cosmo, promovendo um desaparecimento em massa. Os bunkers bilionários não darão conta de escondê-los dos olhos da terra.

Essa mesma, que queimou pólvora de guerra, bruxas em fogueiras e carvão nas produções operárias frenéticas, agora, na memória infindável da terra, recebe a contradança: Hollywood queima, a ficção está em chamas. O Museu Nacional torra, o patrimônio está ardendo. Notre-Dame carbura e a própria moral não se sustenta, no pináculo caído, um falo em chamas, para citar o livro disfórico de Paul B. Com a floresta em brasa, a terra anuncia que esta é uma sociedade da combustão — e que a carne humana é o novo combustível a ser queimado.

 

Não me surpreende que, em meio a todo o fogo de Fahrenheit 451, o autor nos aponta um caminho possível da quietude: a memória. Decorar livros e passá-los oralmente como que soprando um espírito sobre a palavra. A alquimia do fogo é universal. A Do Hiato, Litígio passou por todos esses anos por diversas transformações, junto ao tempo da crítica – o milésimo. Nesta primeiríssima edição-de-cara-nova, no formato sítio-web, mantemos a nossa postura, com o desejo, junto a ys convidadys, de soprar espírito sobre a palavra, quem sabe cozinhar memórias, no desejo amplo de amansar e por mais lenha na fogueira - As esgrimas faiscais de Zé de Rocha, um caminhar sobre as brasas num manifesto de Georgenes Isaac, aquilombamento e gestão como binômio em Stéfane Souto, o começo, o meio e o fim do cinema com George Neri, o céu-de-água, chovido por Alzyr Brasileiro - dizem: Após o Napalm, essa é uma sociedade da combustão.

 

Padmateo - Editora 

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